Ame a Pessoa Com Quem Você Está

Por Jeremy Pierre.
Tradução por Raul Flores.
Originalmente publicado no site Coalizão pelo Evangelho no dia 20 de junho de 2017.

Depois que C. S. Lewis perdeu sua esposa Helen para o câncer, ele se deu conta de que não tinha uma única foto boa dela. Talvez isso seja difícil de entender em nossa cultura de fotos de perfil em vários ângulos, mas ele não ficou chateado com isso. Na verdade, ele viu uma vantagem peculiar na falta de uma imagem de qualidade de sua esposa. Ele escreveu:

“Quero H., não algo parecido com ela. Uma boa fotografia pode se tornar, no final, uma armadilha, um horror e um obstáculo.”

Como poderia uma foto da mulher que ele amava se tornar uma armadilha? Na ausência da pessoa real, ele viu sua tendência em preencher a fotografia com sua própria fantasia. Na verdade, este foi um dos temas de destaque para Lewis em “A Anatomia de Uma Dor – Um Luto em Observação”. Ele estava apavorado com a possibilidade de transformar Helen em um fantasma de sua própria criação. Sua inclinação em desejar certos aspectos da personalidade de Helen mais do que outros, era particularmente alarmante. Claro que ele nunca iria produzir algo fictício sobre ela intencionalmente, mas, devaneou: “Será que essa condição não se tornará inevitavelmente mais e mais a minha própria?” O que mais preocupava Lewis era que Helen se tornaria a ele apenas uma extensão de si mesmo, de seus velhos sonhos de solteirão.

Resistência do Cônjuge

Lewis traz luz a uma dádiva negligenciada nos casamentos: a resistência do cônjuge. Não estou falando de tensão irada ou insubordinação sarcástica. Mas sim, do simples fato de que o seu cônjuge é uma pessoa real, cuja existência não estará de acordo com a imagem que você tem dele ou dela. A resistência do cônjuge serve de âncora à realidade, uma realidade na qual Deus o chama a amar seu cônjuge real, não um imaginário. Lewis observou:

Toda a realidade é iconoclasta. A pessoa amada, mesmo nesta vida, triunfa incessantemente sobre a simples ideia dela. E assim a queremos; a queremos com todas as suas resistências, todos os seus defeitos, toda sua imprevisibilidade. Ou seja, ela em sua realidade firme e independente. E é isto que devemos amar depois que ela morrer, não uma imagem ou memória dela.

Eu diria mais, enquanto ela está viva também. Por mais estranho que pareça, podemos ser gratos pelas milhares de pequenas divergências que temperam a relação conjugal, pelas inúmeras diferenças de perspectiva que avivam a relação. Isso indica que você está interagindo com um ser independente, alguém que você recebeu para amar sacrificialmente.

O Original e Melhor

A essência do amor sacrificial é tranquilizar o outro, ao invés de esperar que o outro tranquilize você. Usando a percepção de Lewis, então, devemos desconfiar da nossa tendência de admirar apenas as características que aprovamos em nosso cônjuge, e de corrigir aquelas que não aprovamos. Lembrar de um cônjuge falecido é ruim; você não está amando a pessoa, mas uma memória editada dela. Servir um cônjuge vivo, é pior; você não está buscando a pessoa, mas o que você espera que ela se torne. Muito melhor é amar a pessoa original, não a edição revisada que você faz dela. Afinal, você é uma pessoa original também.

Amar a pessoa original requer um ajuste da parte de quem ama, e isso pode levar uma vida inteira; essa consideração é uma prova fundamental do amor conjugal ao qual os cristãos são chamados (Efésios 5.21–33). Não desanime quando você não concorda plenamente com seu cônjuge. Onde não há nenhum desacordo, aborrecimento ou resistência, não há oportunidade para o sacrifício. Se amamos apenas o que é agradável a nós em nosso cônjuge, estamos amando apenas as nossas preferências. Não precisamos do evangelho para fazer isso.

Precisamos dele para nos libertar de nossa tendência em ajustar um ao outro constantemente ao nosso gosto. Jesus veio para servir a um Pedro impulsivo, a uma Marta distraída, a um Tomé duvidoso. Ele veio para servir a tolos como cada um de nós. E sim, o amor redentor de Cristo nos muda gradualmente, mas essa mudança está em conformidade com a justiça, e não com preferências pessoais.

Então, se sua esposa ri demais para o seu gosto, ame-a por isso. Se ela é mais pessimista do que você gostaria, trate os medos dela. Se seu marido é mais silencioso em encontros sociais do que você gostaria, seja grata por isso. Se ele tem mais dificuldade em fazer planos do que você acha razoável, esteja contente a seu lado. Em cada pequena resistência do cônjuge, celebre o privilégio de amar uma pessoa, não uma imagem.

Como disse Lewis, a realidade é iconoclasta. Graças a Deus isso é especialmente real no casamento.

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